Quarta, 01 Abril, 2020
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Romances de Emmanuel e o Nosso Tempo

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Diante da comemoração do centenário do nascimento de Chico Xavier, torna-se oportuno ressaltar a importância de parte de seu trabalho psicográfico. Dentre as várias obras por seu intermédio produzidas, optou-se por relembrar alguns aspectos relativos à adequação, às vivências em curso no nosso tempo, dos cinco romances ditados por Emmanuel entre 1938 e 1953. São eles: Há dois mil anos (1939), Cinqüenta anos depois (1940), Paulo e Estevão (1941), Renúncia (1944) e Ave, Cristo! (1953). 1

Acerca da atualidade desses livros, pondera-se que neles Emmanuel rememorou o passado não sob o ponto de vista parcial e limitado dos personagens por ele vividos em parte das histórias 2, mas sob perspectiva mais ampla, em função de seu amadurecimento espiritual alcançado até aquele momento. Nesse sentido, sob o olhar e a compreensão de um espírito postado no século XX, Emmanuel pôde destacar relações de causa e efeito, à época não vislumbrada pelos personagens presentes nas narrativas; pôde atribuir maior ou menor grau de importância aos fatos e aos acontecimentos vividos no pretérito e pôde, inclusive, reordená-los, sem deformar os conteúdos originais, de modo a melhor se adequarem ao contexto no qual essas obras seriam veiculadas. A dificuldade de realizar tal procedimento foi expressa pelo autor em 30 de dezembro de 1938, durante a psicografia de Há dois mil anos: “Tenho-me esforçado, quanto possível, para adaptar uma história tão antiga ao sabor das expressões do mundo moderno, mas, em relatando a verdade, somos levados a penetrar, antes de tudo, na essência das coisas, dos fatos e dos ensinamentos”. 3 Conseqüentemente, as experiências transitórias de Públio Lentulus (Há dois mil anos), Célia (Cinqüenta anos depois), Paulo de Tarso (Paulo e Estêvão), Alcíone (Renúncia), Irmão Corvino (Ave, Cristo!), entre outras, estimulam o leitor à reflexão sobre a necessidade do empenho pessoal na busca pelo autoburilamento, pelo resgate de débitos, pelo reajuste e pela evolução espiritual.

Destaca-se, desse modo, que os cinco romances em questão são adequados e direcionados às vivências em curso no nosso tempo. E essa relação se torna mais clara quando se procura entender o que estava em jogo, sob o ponto de vista espiritual, no momento em que o Autor Espiritual ditava as referidas histórias. Com esse fim, recorreu-se ao livro A caminho da Luz, psicografado entre 17 de agosto e 21 de setembro de 1938 – pouco tempo antes de Há dois mil anos, cuja psicografia seria iniciada em 24 de outubro do mesmo ano –, no qual Emmanuel revelou ser esperado, para o século XX, o início de uma fase de transição, em termos espirituais, da Terra: “Aproxima-se o momento em que se efetuará a aferição de todos os valores terrestres para o ressurgimento das energias criadoras de um mundo novo [...]”. 4

Com base em algumas de suas explicações apresentadas ao longo do mesmo texto, é possível inferir do que se trata esse “ressurgimento” de “energias criadoras” de um mundo novo.

Segundo o Autor Espiritual, consta que há uma “comunidade de Espíritos puros”, eleitos por Deus, responsáveis pela condução dos rumos de todos os tipos de vida contidas nos diferentes planetas situados no Sistema Solar. Essa comunidade, da qual Jesus é um dos membros, teria se reunido, para discutir os rumos da Terra, somente por duas vezes ao longo dos milênios conhecidos: a primeira, logo no início da formação de nosso planeta, para delinear as condições materiais iniciais para o surgimento da vida, e a segunda, às vésperas do nascimento de Jesus, para definir o meio pelo qual as lições do Evangelho seriam comunicadas à Humanidade. 5

Nessa época, a Humanidade teve a sua maioridade espiritual proclamada pelo desenvolvimento da sabedoria dos gregos, na esfera da filosofia, e, seqüencialmente, pelo advento das organizações romanas, nos campos da família e do direito. Como desdobramento, era esperado que Império Romano, em meio à sua vocação expansionista, pudesse unir os mais diferentes povos por meio da educação e da concórdia. Havia também a expectativa da assimilação e da difusão da então recém-chegada mensagem do Evangelho trazida por Jesus, que unificaria o mundo pelos laços da fraternidade e do amor. 6

No processo de realização de sua missão unificadora, o Império Romano acabou se expandindo não por meio da educação e da concórdia, mas pelo recurso à força impositiva e conquistadora de cunho militarista, promovendo, conseqüentemente, o ressentimento e a discórdia entre os homens – consta que boa parte desses desvios somente encontraria o seu reajustamento no transcorrer do século XX. Decorridos aproximadamente 300 anos da chegada da mensagem do Evangelho, suas lições e seus princípios começaram a ser modificados e desvirtuados de modo a se adaptarem às conveniências dos poderes políticos do mundo. 7

Desde então, e de maneira mais intensa nos últimos séculos, a Humanidade se desenvolveu mais no campo material do que no espiritual. A despeito disso, para Emmanuel alguns frutos desse desenvolvimento como o “avião” e a “radiotelefonia”, que à época em que ele escreveu começavam a ligar de maneira mais intensa os continentes e os países, contribuem positivamente para o estabelecimento do princípio da solidariedade entre os seres humanos. Complementarmente, revelou Emmanuel que se aproxima o momento da realização de uma terceira reunião da “comunidade de Espíritos puros” para discutir e para deliberar os rumos da Terra. Com base nessa informação, sugere-se estar vinculado à idéia da realização dessa terceira reunião da “comunidade de Espíritos puros” o “ressurgimento” de “energias criadoras” de um mundo novo aludido pelo autor no início de A caminho da Luz. 8

Sobre a questão, pode-se complementar que, atualmente, a chamada “globalização” – pautada pela expansão do fluxo de informações, pela aceleração das transações econômicas e pela crescente difusão de valores políticos e morais em uma escala sem precedentes 9 –, enseja um ambiente propício para se tentar estabelecer algo que foi tentado pela espiritualidade à época do Império Romano, ou seja, a união fraterna entre os povos conforme as lições e as exemplificações do Evangelho. Nesse sentido, pondera-se que os conteúdos, as lições e os exemplos contidos nos romances de Emmanuel estão articulados a um período de transição espiritual do planeta que prepara a chegada de uma “nova era”, sendo eles, portanto, apesar de terem sido psicografados entre 1938 e 1953, destinados às pessoas cujas vivências se encontram em curso no nosso tempo – tanto no Brasil quanto no mundo. 10

Flávio Rey de Carvalho


* Artigo originalmente publicado no Reformador: Revista de Espiritismo Cristão, Rio de Janeiro, FEB, agosto de 2010, n. 2177, p. 18(312)-20(314).
1 EMMANUEL. Há dois mil anos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: FEB, 2002, 432p.; ______. Cinqüenta anos depois. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: FEB, 2002, 336p.; ______. Paulo e Estêvão. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: FEB, 2002, 600p.; ______. Renúncia. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: FEB, 2002, 456p.; ______. Ave, Cristo!. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: FEB, 2002, 384p.
2 Emmanuel não aparece como personagem somente no romance Paulo e Estêvão. Sabe-se, contudo, que, durante a sua encarnação como o senador romano Públio Lentulus – de Há dois mil anos –, houve breve encontro fortuito entre ele e Paulo de Tarso próximo à Porta Ápia, por volta do ano 58 d.C. Cf. EMMANUEL e o Apóstolo Paulo: uma mensagem inédita. In: TAVARES, Clovis. Amor e sabedoria de Emmanuel. São Paulo: Calvário, 1970, p. 21-23.
3EMMANUEL, Há dois..., op. cit., p. 8.
4 Id. A caminho da Luz. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 37. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 13, grifo nosso.
5 Ibid., p. 19-20.
6 Ibid., p. 123-143.
7 Ibid., p. 157, 255-256.
8 Ibid., p. 254, 256-257.
9 BARBOSA, Alexandre Freitas de. O mundo globalizado: política, sociedade e economia. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2008, p. 12-13.
10 Segundo Emmanuel, é destino da América receber o cetro da civilização e da cultura, na orientação dos povos vindouros. Em meio a esse fim, o Brasil será o local onde aflorarão os valores sentimentais e espirituais, pautados pelo Evangelho, destinados à condução da Humanidade no futuro. Cf. EMMANUEL, op. cit., p. 207, 252.

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